Eu me apaixonei assim que a vi.

By Nubia Dotto - abril 27, 2018


­­­O cheiro do café expresso pela manhã, sempre foi minha fragrância favorita.
Era uma sexta-feira, e não havia quase ninguém além de mim na cafeteria, a não ser por uma senhora já de idade logo na mesa à frente; um casal apaixonado a três mesas a minha direita, e um jovem aparentemente matando aula; ele jogava conversa fora pelo celular, sem preocupação alguma, como se já estivesse acostumado a fazer aquilo.
Lembro-me do meu tempo como estudante; admito, eu fazia o tipo bajulador, ainda mais daquelas professoras que mal pareciam professoras, cuja beleza era indiscutível.
Tentava sempre seguir todas as regras, fazia além do que era mandado, e é claro, odiava matar aula.
Foram tempos legais, tranquilos, mal sabia eu que isso de fato acabaria. O erro da juventude é esquecer que tudo termina um dia, não estão preparados o suficiente para a vida adulta, os compromissos e verdadeiras responsabilidades.
Mas de qualquer forma, eu aprendi com o passar do tempo, me tornei adulto e deixei de ser um bajulador, hoje dou uma fugidinha do serviço para aproveitar uma bela xicara de café.
Posso te ajudar senhor? — A garçonete surge com um sorriso ao meu lado, segurando uma caneta e um papel.
Gostaria de um Cappuccino cremoso, obrigado.
Ela anota meu pedido, logo deixando um pequeno bilhete com o valor em cima da mesa, vira de costas e se direciona a cozinha.
Era a primeira vez que eu havia vindo aqui, acredito que seja uma cafeteria nova, — pelo menos todo o ambiente me dizia isso — ao lado de cada mesa, um paredão de vidro hipnotizava quem ali sentava. Uma praça do outro lado da rua, cheia de árvores tingidas de laranja por causa do outono, tornava a vista ali de dentro magnifica.
Aqui está senhor. — A adorável garçonete novamente aparece, mas dessa vez, trazendo-me meu café com alguns saches de açúcar. — Mais alguma coisa?
Faço um movimento negativo com a cabeça e solto um sorriso.
Tento beber um gole, mas logo desisto, está quente, quente demais, decido esperar até que esfrie um pouco.
Noto algumas moças lá fora, cruzando em frente ao vidro, cada uma com uma beleza diferente, uma loira e a outra morena. Pelo horário e a rapidez de seus passos, pareciam estar dando algum tipo de fugidinha também.
Meu celular vibra; era uma mensagem da minha esposa; portanto, ignoro.
Tento novamente beber um gole do meu café; está mais frio, então bebo dois goles de uma só vez.
Lá do outro lado, uma mulher esperava a sinaleira fechar, afim de que pudesse atravessar a rua. Ela segurava um celular na mão esquerda, suas feições não eram boas, parecia estar com raiva, ou quem sabe chateada com alguma coisa.
Mesmo assim, ela estava linda, muito linda, mais linda do que as moças mais jovens que haviam passado antes, mais linda do que qualquer mulher que havia atravessado aquela rua anteriormente.
Usava um vestido azul até o meio de suas coxas, que por acaso eram grossas e fortes, seu cabelo era escuro e comprido. Seus olhos de um castanho claro, quase mel, suas bochechas quase tão rosadas quanto seus lábios. Ela não era vulgar como a maioria, ela era linda de uma forma simples. Eu me apaixonei assim que a vi.
Meu coração se encheu de alegria só em vê-la.
Eu havia ganhado meu dia, talvez a semana inteira, o mês, o ano, pois no fundo, eu sabia que não veria nada tão perfeito e delicado.
Por alguns minutos, ignorei meu café, ignorei o barulho ao redor, e fixei minha atenção apenas nela.
Até ser dominado por uma breve indignação; noto alguns homens a encarando. Não com um olhar de admiração, mas de maldade, suas mentes sujas a levaram a lugares que ninguém deveria ser levado; lugares desrespeitosos.
Assim que o sinal fechou, ela atravessou a rua lentamente, sem olhar para nenhum dos lados laterais, apenas para a cafeteria, seus olhos fitados pareciam tentar ler as promoções do dia.
Ouvi o som de um sininho; era a porta da cafeteria sendo aberta.
Ela entrou e estava muito próxima.
Tentei disfarçar, olhei para baixo, depois para cima, voltei a olhar para rua, mas nada mais me chamava atenção, então voltei a encara-la.
Por que não me respondeu? Fiquei preocupada! — Disse a linda mulher sentando-se a minha frente.
Desculpa querida, imaginei que já estivesse chegando.


“Um corpo bonito, só deixa de ser apenas mais um no mundo, depois de ser cativo e amado.”




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