O cheiro
do café expresso pela manhã, sempre foi minha fragrância favorita.
Era uma sexta-feira,
e não havia quase ninguém além de mim na cafeteria, a não ser por uma senhora
já de idade logo na mesa à frente; um casal apaixonado a três mesas a minha
direita, e um jovem aparentemente matando aula; ele jogava conversa fora pelo
celular, sem preocupação alguma, como se já estivesse acostumado a fazer
aquilo.
Lembro-me do meu tempo como estudante; admito, eu fazia o
tipo bajulador, ainda mais daquelas professoras que mal pareciam professoras,
cuja beleza era indiscutível.
Tentava sempre seguir todas as regras, fazia além do que
era mandado, e é claro, odiava matar aula.
Foram tempos legais, tranquilos, mal sabia eu que isso de
fato acabaria. O erro da juventude é esquecer que tudo termina um dia, não
estão preparados o suficiente para a vida adulta, os compromissos e verdadeiras
responsabilidades.
Mas de qualquer forma, eu aprendi com o passar do tempo,
me tornei adulto e deixei de ser um bajulador, hoje dou uma fugidinha do
serviço para aproveitar uma bela xicara de café.
— Posso te ajudar senhor? —
A garçonete surge com um sorriso ao meu lado, segurando uma caneta e um papel.
— Gostaria de um Cappuccino
cremoso, obrigado.
Ela anota meu pedido, logo deixando um
pequeno bilhete com o valor em cima da mesa, vira de costas e se direciona a
cozinha.
Era a primeira vez que eu havia vindo
aqui, acredito que seja uma cafeteria nova, — pelo menos todo o ambiente
me dizia isso — ao lado de cada mesa, um paredão de vidro hipnotizava
quem ali sentava. Uma praça do outro lado da rua, cheia de árvores tingidas de
laranja por causa do outono, tornava a vista ali de dentro magnifica.
— Aqui está senhor. — A adorável
garçonete novamente aparece, mas dessa vez, trazendo-me meu café com alguns
saches de açúcar. — Mais alguma coisa?
Faço um movimento negativo com a cabeça
e solto um sorriso.
Tento beber um gole, mas logo desisto,
está quente, quente demais, decido esperar até que esfrie um pouco.
Noto algumas moças lá fora, cruzando em frente ao vidro, cada uma com uma beleza diferente, uma loira e a outra morena. Pelo
horário e a rapidez de seus passos, pareciam estar dando algum tipo de
fugidinha também.
Meu celular vibra; era uma mensagem da
minha esposa; portanto, ignoro.
Tento novamente beber um gole do meu
café; está mais frio, então bebo dois goles de uma só vez.
Lá do outro lado, uma mulher esperava a
sinaleira fechar, afim de que pudesse atravessar a rua. Ela segurava um celular
na mão esquerda, suas feições não eram boas, parecia estar com raiva, ou quem
sabe chateada com alguma coisa.
Mesmo assim, ela estava linda, muito
linda, mais linda do que as moças mais jovens que haviam passado antes, mais
linda do que qualquer mulher que havia atravessado aquela rua anteriormente.
Usava um vestido azul até o meio de suas
coxas, que por acaso eram grossas e fortes, seu cabelo era escuro e comprido.
Seus olhos de um castanho claro, quase mel, suas bochechas quase tão rosadas
quanto seus lábios. Ela não era vulgar como a maioria, ela era linda de uma
forma simples. Eu me apaixonei assim que a vi.
Meu coração se encheu de alegria só em vê-la.
Eu havia ganhado meu dia, talvez a
semana inteira, o mês, o ano, pois no fundo, eu sabia que não veria nada tão
perfeito e delicado.
Por alguns minutos, ignorei meu café,
ignorei o barulho ao redor, e fixei minha atenção apenas nela.
Até ser dominado por uma breve
indignação; noto alguns homens a encarando. Não com um olhar de admiração, mas
de maldade, suas mentes sujas a levaram a lugares que ninguém deveria ser
levado; lugares desrespeitosos.
Assim que o sinal fechou, ela atravessou
a rua lentamente, sem olhar para nenhum dos lados laterais, apenas para a
cafeteria, seus olhos fitados pareciam tentar ler as promoções do dia.
Ouvi o som de um sininho; era a porta da
cafeteria sendo aberta.
Ela entrou e estava muito próxima.
Tentei disfarçar, olhei para baixo,
depois para cima, voltei a olhar para rua, mas nada mais me chamava atenção,
então voltei a encara-la.
— Por que não me respondeu? Fiquei
preocupada! — Disse a linda mulher sentando-se a minha frente.
— Desculpa querida, imaginei que
já estivesse chegando.
“Um corpo bonito, só deixa de ser apenas
mais um no mundo, depois de ser cativo e amado.”
