Estou em um momento neutro
da minha vida, observando tudo e todos ao meu redor. Eu sei de coisas que
muitas pessoas não sabem, essa é a vantagem de estar olhando por cima do muro.
Eu escrevo por essas pessoas que estão cegas, surdas e principalmente mudas; escrevo pela garota com o coração partido a
dois quarteirões da minha casa, que a cada cinco minutos acende a tela do seu
celular na esperança de receber uma mensagem; pela viúva que ainda chora pela
perda de quem mais amou; pelo casal que ainda caminha de mãos dadas em público;
escrevo porque neva, porque venta, porque faz calor e frio, porque até o gelo é capaz de queimar, escrevo porque
alguém precisa falar alguma coisa importante, alguém precisa dizer que o outono
é uma das melhores estações, embora a primavera seja a mais bonita; eu
permaneço aqui olhando a vida de vocês, analisando suas atitudes, e criando
histórias sobre cada um; vocês vivem, e eu escrevo suas aventuras, detalho suas
emoções, e por fim especifico suas conclusões e aprendizados.
E é claro, eu também escrevo sobre mim.
Durante as últimas semanas
eu não deixei minha mente pensar. Enchi-me de ocupações mentais e físicas,
entrei no modo automático, e como um trem desgovernado simplesmente percorri quilômetros
sem refletir sobre o que de fato estava fazendo. Tomei decisões no escuro, e ainda
não me dei o luxo de por para fora o que vem me causando dor. Eu, como qualquer outro ser humano, na
verdade, a maioria deles, estou neste exato momento, vivendo por viver. Não é
algo que me alegro em dizer, mas é a realidade, e eu preciso desta realidade
para chegar ao um ponto de cansaço extremo. Infelizmente, sou o tipo de pessoa que
depende de alguns tombos (muitos) para perceber que uma atitude precisa ser
tomada. Isso não me torna derrotado, é apenas a forma que encontrei de ganhar
um impulso.
Eu escrevo porque estou
cansado. Estou tentando frear esse trem sozinho. Corro sérios riscos de vida,
mas tudo bem, logo nascerei de novo.
Eu escrevo porque alguém
precisa dizer que dói. Ser atropelado e arrastado por metros de trilhos. Mas
é preciso parar. Você vai sentir raiva, você vai chorar, vai sentir na pele a
pior dor que já sentiu, mas vai passar, e quando passar vai descobrir que foi necessário, porque isso tudo se resume em uma busca pela melhor versão de si.
Eu escrevo porque me
apaixonei pela vida, e quando algo de ruim acontece, quando algo me ergue pelo
pescoço e me sufoca, compreendo que preciso continuar de pé para poder escrever o
quanto foi satisfatório cair de joelhos no chão, e perceber que continuo respirando.
