Se entregue antes que a peça acabe!

By Nubia Dotto - junho 25, 2017

Cabelos presos em um coque, sem deixar nenhum fio solto, um collant branco com uma sainha transpassada da mesma cor, uma meia-calça e uma sapatilha de ponta — repito para mim mesma várias vezes, enquanto me observo através do espelho.
Ouço vozes vindo da plateia, alguns cochichos, umas risadas forçadas, outras irônicas e poucas autênticas.
Sinto meu corpo vibrar junto com os aplausos para o artista, que acabara de terminar seu show.
Escuto alguém chamando meu nome, logo percebo um reflexo a mais no espelho, é minha instrutora de dança, Karen.
— Mirela — ela pronuncia de forma animada e otimista, segurando-me pelos ombros — Está pronta? Você é a próxima!
Com o coração acelerado, tomada por pensamentos, balanço a cabeça de forma negativa
— Ainda não?  Temos pouco tempo. Trate de se preparar logo. — Ela insiste impaciente
Dou mais uma boa olhada para o espelho e volto a repetir:
Cabelos presos em um coque, sem deixar nenhum fio solto, um collant branco com uma sainha transpassada da mesma cor, uma meia-calça e uma sapatilha de ponta — Tentando convencer a mim mesma de que estou pronta e que já está na hora.
Faltam apenas 10 minutos.
Contagem regressiva...
Ainda no camarim, fecho os olhos...
Tenho 7 anos de novo...
Minha mãe está penteando meus enormes fios de cabelo.
Lembro-me dela com seu sorriso jubilante, citando Charlie Chaplin, que comparava a vida com uma peça de teatro. Ele dizia que as vezes, não nos era permitido ensaiar, portanto deveriamos viver o mais intensamente possível. 
Para me encorajar, mamãe repetia que depois de enfrentar os três primeiros segundos, os próximos ficariam mais fáceis de alcançar, deixando à vitória a um passo.
Lembro-me também, dela dançando enquanto fazia o almoço, e quando percebia que eu a assistia ela dizia:
— É nosso segredinho ok? Não podemos perder o ritmo nunca — Com um inocente sorriso, sem maldade alguma, agarrando-me por um braço e me fazendo dançar junto.
Depois de alguns minutos, volto a abrir os olhos.
Respiro fundo e me desloco até o centro do palco.
As luzes se apagam e um enorme refletor ilumina a minha volta.
O silêncio toma conta.
Todos estão ali por minha causa, é minha responsabilidade cativa-los.
A música começa a tocar como um ruído quase nada audível, passando a aumentar o tom após segundos.
Está na hora!
Na ponta dos pés e com postura, inclino minhas mãos para o alto, ganhando asas invisíveis e flutuando pelo palco sem que me afastasse do chão.
Dou algumas piruetas e alguns saltinhos no ar.
Meu corpo está presente naquele teatro, embora minha mente esteja longe, vagando pelos quatro cantos do mundo.
Sou um pássaro e em questão de segundos me transformo em um peixe.
Como um míssil caiu de joelhos no chão, como parte da dança, explodindo tudo ao meu redor.
Volto para a realidade quando percebo que a música chega ao fim.
Aquele momento passa tão depressa que, quase não consigo notar os minutos correndo no relógio.
Finalizo a coreografia com delicadeza e doçura transformando aquele silêncio em centenas de assovios e aplausos.
Me apresentei de forma impecável, recebendo minha vitória, que agora não estava mais a um passo, mas sim, bem diante dos meus olhos...
Todos levantaram para me aplaudir de pé.

"A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos."
Charlie Chaplin



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