A liberdade é um estado mental.

By Nubia Dotto - junho 26, 2017

Eu tinha 8 anos de idade, quando fui com meu avô até uma agropecuária.
Era aniversário de papai e queriamos dar um pássaro a ele de presente.
Meu pai era biologo, gastava grande parte do seu tempo estudando animais, principalmente pássaros. Sua fascinação por eles era o que o inspirava. 

Assim que chegamos na esquina da loja, já era possível ouvir o cantarolar que vinha de dentro. Parecia um grande coral de aves, cada uma exibindo seu dom vocal.
Logo na entrada, fomos recepcionados por três lindos coelhinhos, que se mantiam imóveis dentro da gaiola, a menos por seus fusinhos, que ficavam o tempo todo se mexendo. Ouvi dizer que, por terem um olfato muito apurado eram extremamente sensíveis, podendo apreciar diversos cheiros.
Vovô pegou em minha mão para entrar.
Circulamos entre os corredores da agropecuária tentando encontrar a espécie certa.
Lá no fundo de um corredor, havia alguns canários belga. Um me chamou muito a atenção, por ter algumas penas avermelhadas junto com um amarelo ouro. Enquanto todos cantavam, ele permanecia em silêncio, apenas virando sua cabecinha de um lado para o outro. Imaginei que ele estava tentando compreender o que acontecera ali.
Sem hesitar, tiro a gaiola do gancho que a mantia pendurada.
Vovô me olha com um olhar entusiasmado
— Vamos dar esse? 
Olho novamente para a gaiola, fixo meu olhar no pássaro solitário, repetindo as palavras de meu avô de forma exclamativa.
— Vamos dar esse!

Chegando em casa, corro em direção à estufa de papai, onde ele passava praticamente o dia todo quando não está trabalhando fora. Lá havia muitos tipos de árvores e flores, inclusives uma linda magnólia, a qual encontro-o podando assim que entro
— Pai! Trouxemos seu presente. Esperamos que você goste. — vovô surge por trás, entregando a gaiola nas mãos dele.
Com um sorriso estonteante, ele a pendura perto das de mais aves que já havia adquirido.
— Ele é lindo! Obrigado pai e obrigado filhão.
Agora teriamos um coral em casa. Cinco lindos canarinhos amarelos e um avermelhado.

Mais tarde naquele mesmo dia, voltei à estufa para ver o que papai ainda fazia la, já era quase meia à noite e ele ainda não tinha se recolhido.
Quando entrei ele estava com uma das gaiolas aberta, em cima de sua escrivaninha.
— Ele não vai fugir? — indaguei surgindo inesperadamente.
Seus olhos se fixam para mim por alguns segundos, noto um pequeno susto ao me ver tão repentinamente.
— Não.  Ele não conseguiria fugir — ele responde franzindo a testa
— Por que não?  A gaiola está aberta — me debruço sobre a mesa, analisando as feições do pássaro
— Quando são trancados em gaiolas, sentem como se sua essência estivesse limitada, perdem a capacidade de conseguir voar, achando que por algum motivo, suas asas foram cortadas — ele fita os olhos sobre mim e logo sobre a gaiola — Vou te mostrar.
Estendendo a mão para dentro e com sutileza espichando um de seus dedos para que o pássaro viesse a subir.
Assim que ele sobe, sua mão é retirada de dentro da gaiola.
Para minha surpresa, o animal se mantém parado, sem nem tentar abrir as asas e bater vôo.
— Viu? Ele está com medo de cair. Mesmo estando fora da gaiola, sua mente ainda está presa.
— Será que um dia ele vai voar de novo? — pergunto-o cabisbaixo
— Eu espero que sim meu filho, se ele tiver sorte. — colocando-o no galho  de uma das árvores
Depois de alguns minutos, me vendo tristonho ele continua:
— Assim como o ser humano, que tem uma mente capaz de ultrapassar limites, os pássaros tem asas para voar!  — Ele bagunça meu cabelo com a mão, sorridente  — Sabe filho, as vezes por medo, ancoramos nossos sonhos e nos privamos de viver. Mas, uma vez que conhecermos a liberdade, jamais nos prendemos de novo.
— Obrigado por me mostrar pai. — Abraço-o ainda chateado.
Viro de costas e me dirijo para dentro de casa.

Ao nascer do sol acordo com pequenas batidas no vidro da minha janela.
Levanto da cama assustado, indo em direção a ela. Quando me aproximo e ergo o vidro, percebo a presença de mais alguém ali. Um pássaro. 
Ele estava bicando o vidro, a fim de aparentimente, me acordar..
Inclino meu braço para fora, estendendo minha mão até ele.  Quando menos espero, ele pousa em um dos meus dedos.
Aproximo-o de mim e logo noto pequenas penas avermelhas entre as amarelas.
Era o pássaro que no dia anterior vovô  e eu haviamos dado para meu pai. O pássaro que ele soltou na árvore.
— Como você conseguiu voar? — pergunto-o mesmo sabendo que ficaria sem respostas afinal.
Depois de alguns segundos ele abre as asas, batendo vôo para longe, sem recuar. 

Cheguei a conclusão de que, papai estava certo. Liberdade é um estado mental. As vezes nossa mente é nossa maior prisão e assim que provamos da verdadeira liberdade, não olhamos nunca mais para trás. 

"A liberdade assusta quando perdemos o hábito de usá-la."
Robert Schuman


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