Estenda as mãos
By Nubia Dotto - novembro 16, 2017
Eu sabia que ele precisava de ajuda. E mesmo sabendo disso,
meu corpo permanecia imóvel com o olhar fixo naquele garoto totalmente vulnerável.
Escondi-me atrás de algumas lixeiras e fiquei observando
aquela cena; algo dentro de mim dizia que era minha obrigação ajuda-lo, não
porque tínhamos qualquer tipo de relação, mas porque eu estava ali e
presenciava tudo, podendo fazer alguma coisa, mas sem fazer nada. Algo me dizia
que o remorso iria me ferir ainda mais do que os socos e chutes que aqueles
garotos o deram.
Eu aprendi que sempre vão existir pessoas maiores do que
você, pessoas que talvez usem essa vantagem para tirar proveito de algo ou
alguém. Era exatamente isso o que faziam ali, ele era menor e mais fraco, sem
contar que não fazia o tipo popular.
Seus olhos mal se mantinham abertos, talvez
fosse à dor ou ele apenas os abria e fechava com o intuito de que quando
abrisse de novo, aquilo tudo não fosse real, pelo menos não hoje.
É normal sentir medo, é normal sua cabeça te mandar fazer
mil coisas e no fim você não fazer nenhuma. Mas
chega uma hora, um momento em que você precisa segurar as rédeas da sua vida
com força e mudar a direção para qual está indo.
Parar de sentir medo de tudo e de todos.
Meus pensamentos me deixaram imerso; uma imersividade tão
profunda que acabei não notando que meu esconderijo havia sido descoberto. Por
sorte era apenas David, meu melhor amigo.
— De novo você aqui? — ele se abaixa do meu lado,
desviando o olhar para o garoto caído no chão.
— É. — Sussurro.
— Então tá na hora de ir, temos aula cara. Não adianta só
ficar olhando igual a uma estátua, as coisas não mudam assim.
Ele tinha razão, as coisas realmente não mudavam assim.
Eu sabia que todos os dias aquele menino precisava de ajuda. As pessoas daquela
escola o viam caído pelos cantos sempre com hematomas, mas ninguém tinha
coragem ou empatia o suficiente para ir até lá e o ajudar a levantar.
— A pior coisa desse mundo, não é a violência, não é o
que fazem conosco, não é a dor e nem a ardência de um machucado.
David me olha revirando os olhos.
— Então o que é?
Levanto-me e saio de trás daquelas lixeiras.
— A apatia. — Assim que termino de falar, ando em direção
ao garoto atirado no chão.
Talvez eu tenha demorado de mais, talvez tenha esperado aqueles
caras irem embora de propósito; entretanto, eu sabia que pelo menos hoje ele
não precisava levantar sozinho.
Admito que a cada passo que dava, meu coração acelerava
junto com meus pensamentos, minhas pernas bambas quase me faziam voltar.
Mas hoje eu não voltei. Alguém precisava fazer alguma
coisa então decidi que deveria ser eu.
Não espere que
alguém faça aquilo que você pode fazer.
Simplesmente faça.
Se todo Ser humano
tivesse pelo menos 50% de empatia incondicional, o remorso seria apenas uma
palavra do dicionário.
Mude sua perspectiva sobre as situações e então terá resultados e destinos diferentes.
Todos cruzavam perto daquelas cercas, com seus olhares sarcásticos queimando nossas peles.
Eu não podia curar sua dor e nem diminuir a humilhação
que já havia passado, mas depois de tomar uma iniciativa, eu sabia que dali
para frente podia ser diferente, porque eu me tornaria seu amigo.
Ele olhou pra mim, me estendeu a mão e sorriu.
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