O balanço
By Nubia Dotto - agosto 18, 2017
Eu a encontrei novamente em uma cafeteria que
acabara de ser construída perto da minha casa.
Assim que a vi, meus olhos se manteram focados em
seu lindo rosto por longos segundos.
Era inacreditável; já haviam se passado mais de
15 anos desde a última vez que estive com ela. Mesmo depois de tanto tempo,
ainda conseguia recordar-me de cada minuto que passamos.
Quando eu tinha entre 9 e 10 anos, todos os
dias no pôr do sol, eu corria ate a pracinha abandonada que ficava a mais ou
menos, 2 quadras da minha rua.
As crianças eram proibidas de irem lá, por
causa de um balanço que ficava rente a um penhasco. Para surpresa de muitos,
era meu brinquedo favorito. A altura nunca me causou medo, na verdade, você só
acaba caindo quando permite que seu medo se torne maior do que a altura.
Eu adorava sentir a intensidade que o vento se
chocava com o meu rosto; por ser um lugar muito alto, ventava quase o dia
inteiro, mesmo que lá em baixo o tempo estivesse seco.
Caroline era minha melhor amiga, minha companheira
de aventuras proibidas.
Toda vez que subíamos lá, ela morria de medo.
Mas, assim que via as lindas arvores do bosque, o riacho rochoso logo a baixo,
seu medo se transformava em coragem. Dávamos as mãos e nos balançávamos juntos,
em sincronia.
— O que você quer ser quando crescer? — Carol
sempre me perguntava como se esperasse uma resposta diferente.
— Médico — eu respondia sem ter duvida alguma. —
Quero poder salvar muitas vidas.
— Eu quero ser veterinária, ter muitos
bichinhos — Ela ria quando terminava sua fala.
Éramos inocentes.
Mal sabia eu, que um dia acabaria tendo duvidas
sobre o que realmente sonhava ser.
Com o passar do tempo, passei a ter medo disso,
medo de não conseguir ser alguém.
Toda vez que ela me indagava a mesma coisa, mais
eu tinha certeza.
Porém, quando deixamos de frequentar nosso “esconderijo”
e automaticamente deixamos de nos ver, minha mente se encheu de duvidas.
Quem eu era?
O que procurava?
Para onde ia?
Caroline me influenciava a sonhar.
Eu era a parte corajosa e ela a parte sonhadora.
Meus pais se separaram naquele ano. Passei a
morar com minha mãe em outro bairro; bem longe dali.
Por ser tão novo, não podia sair sozinho. Muito
menos ir até lá.
Olhando para ela naquele banco, fez com que o
passado me viesse como déjà vu.
Eu sentia que precisava ouvir sua voz, nem que
fosse pela ultima vez.
Não tive a chance de me despedir, mas agora eu
tinha.
— Com licença — Olhei diretamente em seus
olhos, enquanto me aproximava de sua mesa.
— Pois não! Posso te ajudar? — Ela se ajeitou
na cadeira, fixando seu olhar em mim.
— Meu nome é Bryan. Não tenho certeza se você lembra-se
de mim. Mas, fomos amigos á 15 anos atrás.
— Claro. O balanço proibido, certo? — Ela rapidamente
se recordou de mim.
— Esse mesmo — Solto uma risada — Posso sentar?
— Pode sim, desculpe a falta de educação. — Ela
me olha envergonhada — O que tem feito?
Sentei-me e logo comecei a falar:
— Bom... Não me tornei médico, nem cheguei
perto disso. Estou estudando á noite para concluir o ensino médio. Acabei me
aproximando de pessoas ruins... Perdi alguns anos.
Era notável sua cara decepcionada enquanto eu soltava
as palavras.
— Sinto muito. Acontece não é mesmo? A gente
vive tanto o momento, que acaba esquecendo-se do amanhã.
— É verdade. Mas, e você?
— Eu me tornei veterinária. Tive uma filha
linda e estou montando uma ONG para animais abandonados. Eu amo o que faço.
— Lembro que você sempre repetia isso. Fico
feliz. Sabe... Queria te pedir perdão por ter simplesmente sumido. Eu era uma
criança, não tive escolha.
— Eu soube sobre seus pais. Minha mãe era muito
amiga da sua família. Acabei ouvindo uma conversa de que vocês haviam se mudado
para longe.
— Você continuou indo lá? — Mudo de assunto
— Sinceramente... Não. Era divertido brincar
com você. Era algo nosso. Assim que você se foi, parte de mim se foi também.
Não havia graça em subir até lá sozinha.
Uma voz masculina soou de trás de mim
— Caroline, amor?
Um homem de aparência esbelta, porém consumido
por um olhar temeroso, surgi ao nosso lado.
— Oi amor, esse é Bryan, um amigo de infância. —
Ela se levanta imediatamente da mesa.
— Oi, Prazer — Me levanto em seguida, erguendo
a mão para cumprimentá-lo.
— Prazer, Dionathan — Com curtas palavras ele
me cumprimenta friamente. — Temos que ir. Mirella não esta reagindo aos exames,
o hospital me ligou agora pouco e eles não sabem mais o que fazer, precisamos
de outro médico — Dessa vez se dirigindo a Carol.
— Tudo bem — Ela me olha com um olhar cabisbaixo
— Preciso ir Bryan, foi um prazer te ver novamente.
Em fração de segundos, ela se foi.
Quando eu era criança sonhava em salvar
pessoas.
A partir do momento que deixei minha mente se
preencher com pensamentos vazios e momentos fúteis, eu deixei de ser criança e
me tornei adulto.
Não eram as cordas do balanço que me manteve seguro
naquele tempo. Mas sim, Caroline.
Suas doces palavras me enchiam de coragem.
Até então pensava que era eu que a encorajava,
no entanto o tempo todo foi o contrario.
Assim que o sol começou a se pôr, sai da
cafeteria e fui de carro em direção a minha antiga casa.
Tudo lá estava do mesmo jeito, as pessoas não
pareciam ter mudado nada.
Eu andava vagarosamente analisando cada
detalhe.
Quando percebi, acabei chegando à rua onde
Carol e eu nos encontravamos todos os dias.
Uma arvore estava caída bem em frente à entrada
da pracinha.
LOCAL PROIBIDO, dizia em amarelo em uma placa apontando
para a entrada.
Estacionei o carro perto do cordão.
Olhei para os dois lados, e não havia ninguém
por perto.
Decidi pular por cima do tronco caído que
barrava a passagem.
Logo que cheguei do outro lado, notei que lá em
cima o balanço ainda estava intacto.
Sem hesitar, puxei a corda do balanço para
perto de mim, sentei-me e assim que fechei os olhos, meus pés saíram do chão.
Quando eu era criança, a altura não me
assustava. Eu não conhecia o medo.
Quando eu desisti de mim mesmo, o medo passou a
fazer parte de mim. Eu tomei conhecimento sobre ele.
Eu estava sozinho com meu arrependimento me
sufocando.
Ouvi um ranger vindo de cima.
O pequeno tronco que segurava o balanço estava
velho e enfraquecido. Olhei para baixo e o riacho estava agitado. Suas águas formavam
ondas violentas.
Tentei voltar para o chão, mas o vento soprava
contra mim, o que dificultava minhas tentativas.
Quando impulsionei meu corpo com força para a
beirada o galho se partiu.
Eu me aproximava da água em câmera lenta.
As rochas do riacho eram cada vez mais visíveis.
Estava com medo. Não pude salvar nem a mim mesmo.
Eu perdi tanto tempo, que acabei não tendo mais
nenhum.

1 Comments
Maravilhoso,tu é incrível. Amei!
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