Luto
By Nubia Dotto - agosto 22, 2017
— Tudo que nasce um dia morre. — Dizia minha
avó na varanda de casa, enquanto se balançava em uma cadeira — Daqui á 1000
anos, ninguém mais se lembrará de quem éramos. Ninguém saberá sobre nós;
seremos como poeira esquecida no tempo.
— E como faço para não ser esquecido? — Perguntei olhando diretamente para seu
rosto.
— Deixando marcas; pegadas.
— Como assim? Pegadas?— Me sentei em um degrau próximo á ela.
Ela pensou por alguns segundos, ate que
perguntou:
— Qual seu sonho querido?
— Quero ser escritor. — Respondo com um sorriso
largo.
— Por quê? — Ela
rebate.
— Gosto de poder expressar sentimentos e passar
mensagens através das palavras. É uma forma de fuga em algumas situações.
— Suas palavras podem fazê-lo ser lembrado. —
Ela me olhou de uma forma grandiosa. — Quando você muda a história de alguém,
mesmo sendo com pouco, você se torna imortal para aquela pessoa. Esse é o único
tipo de eternidade que temos; nas lembranças de alguém.
— Acha que posso ser um grande escritor?
— Acho que pode ser quem você quiser. — Ela
solta uma risada estridente, com uma certeza que mal cabia em si.
Algumas rosas vermelhas são jogadas em cima do
caixão.
Suas pétalas se despregam do botão.
Nenhuma daquelas flores havia sido colhida
nesse dia.
Era notável. Suas folhas estavam murchas e
ressecadas.
Todos ali vestiam preto, talvez porque devia
ser assim; ou então, porque ninguém estava vivo por dentro. O luto sempre
tornou tudo preto e branco.
Existem pessoas que superam perdas rapidamente;
outras levam anos.
Mas existem aquelas que nunca superam. Suas
almas sofrem até o fim.
É difícil aceitar a morte. Entretanto; ela faz
parte da vida. Basta nascer e então você será sujeito a morrer a qualquer hora.
Não existe uma só pessoa que tenha um futuro
diferente.
Pobre, rico, milionário... Feio, bonito,
engraçado... Escritor, poeta, médico...
São rótulos.
Só o que realmente fica no final, são os
momentos de compaixão.
Aquele abraço que você deu quando alguém mais
precisava.
Aquela simples palavra que você disse para
animar o dia de alguém.
As marcas que você deixou enquanto caminhava
para a tão indesejada e temida morte.
— Sentirei saudades vovó, obrigado por tudo. — Sussurrei enquanto
choramingava ajoelhado ao lado do caixão.
Seu corpo entrando em putrefação me causava arrepios.
Embora ainda continuasse com sua mesma aparência, já era possível notar sua
pele mórbida e fria.
Uma criança corria pelo cemitério, desviando das pessoas.
Era meu filho, Josh.
— Pai, vamos? Temos que buscar a mamãe. — Ele gritava sem ter noção do que
acontecera ali.
Sua inocência o cegava; a morte era algo desconhecido para ele, por isso
não a temia.
Na idade de Josh, decidi me tornar escritor.
Foi quando minha verdadeira historia começou.
As palavras me guiaram para caminhos diferentes, me deram coragem e
força, principalmente naquele momento.
Vovó sempre estará comigo.
Ela acreditou em mim. Foi a primeira a me dar todo apoio.
Foi um exemplo na minha vida.
Para mim, ela era imortal; independente daquele imenso cemitério, do
preto, das rosas vermelhas, ou de todo o cenário de luto.
Ela continuará viva enquanto eu viver.
Ergo-me do chão, limpando os joelhos sujos de terra com as mãos.
— Vamos. — Após algum tempo, saio daquela paralisia temporária,
respondendo meu filho.
Ele agarra minha mão.
Sua mão estava quente, seu sangue circulava normalmente.
Ele estava vivo; mais vivo que nunca.

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